segunda-feira, 16 de abril de 2012

Poesia de classe.

Na classe, com a turma da terceira série, a professora nota que um dos alunos não está copiando a matéria. Ela se aproxima do garoto, com a santa paciência das boas professoras, e pergunta docemente:
- Há algo errado, meu querido?
- E por que haveria?
- Você parece distraído, zangado ou inibido...
- E por que pareceria???
- Você não está copiando a matéria, seu sabido! Com a cara enfiada nessa folha, sem seu livro. Posso ler o que escreve ou será que é proibido?
- São só uns garranchos, quase um escrito.
- E por que não copia o texto pedido?
- Não sei copiar, não quero, eu insisto...
- Faça um esforço, e te dou um ponto enquanto copia.
- Não quero ponto, e seria sem esforço, tia...
- Por que diz isso?
- Porque se eu só copio, afundo o navio. Preciso inventar novos destinos.
- E você acha que consegue, começando assim sozinho?
- Eu só quero aprender o que estiver no meu caminho.
- Esse é seu caminho, bobinho... Ninguém chega tão longe sem a escola.
- Mas... como pretendem formar bons profissionais, se nos tirarem aquilo que somos mais capazes? Ora bolas!
- E do que é que você é mais capaz então, querido?
- Sou capaz de escrever, mas não o que me é pedido. Há algo errado comigo?
- É o que descobriremos... Meninos, silêncio! Vamos ouvir o texto do amigo...
O menino, atrapalhado, surpreso e acanhado, levantou-se e leu seu recado:
- Primeiro a gente copia a matéria da escola. Depois, na prova, a gente cola. Depois a gente cresce, e copia quem cresceu primeiro. E depois a gente dá um chute no traseiro de quem tá na frente...
- Basta. As rimas são ótimas. Você já mostrou seu trabalho, sua óptica... Agora sente-se e copie a matéria.
- Não dá.
- E por que é que agora não daria?
- É que eu só sei fazer poesia, tia... Eu só sei fazer poesia.