quarta-feira, 13 de junho de 2012

Geraldinho


- Cada coisa, né Geraldinho?
- O que foi, mamãe?
A mãe dispersa, ao volante, não respondeu à pergunta do filho, que inquieto, repetiu mais alto:
- O que foi, mamãe???
- Oi? Nada, meu filho... não foi nada.
O menino, conformado com a resposta, começou a brincar de adivinhar o pensamento das pessoas na rua. Soltava frases aleatórias, imitando diferentes vozes.
- E agora, ainda por cima, eu vou ter que arrumar uma desculpa pro meu chefe, é mole?- disse a mãe, baixinho.
O menino a olhou com os olhos estalados, se perguntando se ela estava falando com ele, e se deveria responder.
- É, mamãe. É...
- Você acredita, meu filho, que tem tanto cara de pau assim nesse mundo?
O menino, sem saber ao certo o que dizer, completou apenas com um: “Ahan”, balançando a cabeça afirmativamente.  A mãe ainda continuou:
- Eu ia acertar tudo no final do mês, ainda ia sobrar um pouquinho. Mas não, o seu pai tinha que meter o bedelho e complicar tudo de novo! Ah, aquele pilantra me paga quando chegar em casa.
- Você vai brigar com o papai?
- E ainda por cima esse babaca empaca na minha frente, eu mereço uma coisa dessas?- resmungou, disparando a buzina- Eeeei! Anda logo, patife... Ninguém aqui tem o dia todo não!
 O menino, dividido entre estar assustado e orgulhoso da mãe, congelou um sorriso sem graça no rosto.
A fila de carros foi se desfazendo. A nervosa mamãe de Geraldinho se acalmou um pouco, e enquanto se aproximava da escola dele, completou sua lição matutina com chave de ouro:
- Você aprendeu, né meu filho? Nunca seja igual à essas pessoas. Nunca!- disse, arrumando a risca toda torta no cabelo do menino com um grampo.
- Ahan.
- Ótimo. Você é um menino muito inteligente, meu filho. Sei que ainda vai me dar muito orgulho, você se parece muito comigo.
- Pareço?
A mãe colocou a lancheira na mão do menino e olhou no retrovisor.
- Agora vá. Entre logo que a mamãe está com pressa e tem que resolver um monte de coisa chata de adulto ainda hoje. Um beijo, meu filho. Se cuida...
O menino ficou olhando o carro se afastar e entrou na escola pensativo. Ele ainda não sabia se queria se parecer com a mãe ou com o pai.
O sinal bateu. Todos entraram, menos Geraldinho, que se sentou no banco azul e chorou sozinho, enquanto nenhuma inspetora o percebia.