segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cochicho pra um beija-flor

Estou retornando de uma viagem muito longa. Eu nem sei se me lembro ainda, de como era a minha vida, antes de não acontecer você. Digo “não acontecer” por essa sucessão de quases e semis, ilusórios e encantados. Essa parte de faz de conta que refez minha vida em outra.
Desde a primeira vez que te vi, me mantive presa em fascinação envolvente por sete anos. Sete anos de vai ou não vai, fica ou não fica, quase vai, semi-fica. Dançamos nessa brincadeira gostosa, um correndo atrás de seduzir o outro, de enlouquecer, de mentir de verdade. Nos perdemos em tantas e nos encontramos tão pouco. Nada me vinha, exceto seu rosto, seco. Eu imaginava as mesmas histórias passadas em um milhão de formas diferentes, mas no fim, sempre achava mesmo que aquele jeito – o jeito de não ser- foi o melhor que poderia nos ter acontecido. Todavia, se não deveríamos, se não poderíamos, porque insistir?
Em silêncio, eu te percorria por horas, com os olhos famintos, vidrados em fotografias cheias de sorrisos. Eu me contentava com seus lábios entreabertos nas imagens de momentos que te fizeram feliz, e que eu não estava.
Mas a verdade é que nós mal nos conhecíamos, mal no conhecemos, mesmo hoje. Se eu te ver por aí, andando estranho pelas ruas, vou atravessar em meio a todos os carros, corpos e bicicletas e vou te abraçar feito uma tonta. E meu corpo não vai tremer, mas vou suspirar. Vou cheirar seu cheiro e tentar guardá-lo em mim ao menos até a próxima hora de sono. Porque só assim eu te levo comigo, e como dito, faço isso assumido há sete anos. Reconhecer que penso em você com a mesma intensidade de sempre não me avermelha. Você me fez sem vergonha do início ao fim, e é por essa delícia que me mantive forte na loucura.
Me deseja sorte? É que de uns tempos pra cá, eu andei pensando sobre uma caixa cheia de surpresas que você me deu um dia, e me pediu pra guardar até que pudéssemos abri-la juntos, de corpo quente, com queijo e vinho. Mas isso já faz um tempinho... O queijo estragou, e o vinho eu bebi sozinha, gole por gole, em noites quaisquer. O que de melhor eu tive, eu consumi até a última gota. E se tivesse mais, pode crer, eu mandava ver, porque eu nunca fiz economia de desejos, sempre me esbaldei, sempre me doei, me cortei, sangrei, mas voltei e até hoje estou aqui, inteira. Se me faltou alguma coisa, é você lá atrás, mas fique tranqüilo, eu nunca esperei tudo. De fato, nada esperei.
Agora, me dá licença? É que eu preciso abrir a janela dos fundos, pra arejar essa despedida, de chegada sufocada, cama coberta, braços cruzados, olhar distante e adeus sem razão. Eu preciso jogar fora alguns velhos discos que tocaram as mesmas canções por sete anos. Acho então que isso foi feitiço, ou que foi carma. Não dizem mesmo que esse é o tempo que a coisa dura? Pois é. Paguei e apagarei. Pareço perdida, eu sei. E eu nem imagino como deve ser abandonar o drama dessa paixão mal resolvida. Eu não faço idéia de como vou caminhar, cruzando os olhares com os olhos do mundo sem achar que serão os seus a qualquer momento, ou sem fingir que são. Sem inventar sua pele em outra pele, seu cabelo, nariz e voz. O mais marcante de você. E a sua boca... Dela, eu te juro que vou guardar o gosto dentro da nossa caixinha. Vou cuspir também, pra deixar meu gosto junto com o seu. Depois vou enterrar todas essas vontades e só vou revelar de cochicho pra um beija-flor, essa mesma palavra mágica, que nunca mudará o nome, nem o canto onde dorme. Você não vai nem sentir todo esse abandono. O outro lado da king size por onde revira as suas noites estará abrigando outro corpo, quiçá de cabelo loiro e gostos iguais aos seus.
Agora vou me sentar nessa janela do segundo andar, de vista pro mar, e esperar que um marinheiro venha me buscar.
Se cuida, paixão antiga! Vontade que foi mais minha... Coisa indefinida, de impulso que não cedeu.