segunda-feira, 16 de julho de 2012

(Que assim) Seja, como foi - Um conto de Orações MaLditas

Colocou as palavras na minha boca como quem possui o inenarrável dom de inventar histórias secretas. E ainda foi mais além: colocou também palavras de ódio em meus ouvidos, sobre outros, e sobre mim nos ouvidos dos outros. Não sei do que devo ousar nomeá-la e jamais teria o desprazer de chamá-la novamente. De tudo o que se faz serpente, o pior dos venenos. De tudo o que se faz de gente, o perigo amigo - confidente, e sem uma lágrima sequer de verdade. Sabe chorar como uma criança, em horas de convencimento. Todavia, em suas horas de baixaria estampada no ato, se torna arredia e cruel. Farsante. Gritaria. Ânsia de vômito. Atravesso a rua. Ânsia de vômito. Faço por mim. E se fosse você? E se tentasse deixá-la e aquilo pudesse matá-la, não esperaria mais um dia? Pelo futuro da culpa?
Aos prantos, me pedia que ligasse. "Me liga, eu não estou bem, sou capaz de uma loucura. Não sei se chego lá", ou pior: "Não sei o que minha mãe pode fazer comigo se descobrir que cheirei cocaína, vai me internar numa clínica como a do Bicho de sete cabeças...". E então você liga, de medo. Liga no meio de uma janta, e no meio do seu programa favorito, e até no meio do seu banho. Porque ela te cerca de pressentimentos ruins. Ninguém atende. Ninguém atende. Aconteceu. Só pode ter acontecido, o pior. Ela te disse, te avisou. Ninguém atende. O mal é real e está feito. A culpa é sua, ela te avisou. Ela o fez. Alguém o fez. Suicídio. Intencional, acidente. Está feito, ninguém atende. Ânsia de vômito. Ela deveria ter chegado há quase três horas. Vigésima nona ligação.
- Alô?
- Você está bem?Por que não atendeu? Pensei que...
- Por que você não para de me ligar?- (Lágrimas) - Eu não te aguento mais!!! Você está me sufocando... - (Lágrimas)
- Mas você disse...
- Chega. Me dê um tempo. Chega, por favor. - (Público)
- Eu juro que não entendo!
Desligo. Faço as malas. Tremo. Não era eu quem deveria estar chorando? Nojo. Mentira bem ao meio de outras duas mentiras. Talvez um daqueles amigos tortos a estivesse influenciando. Deveria ser isso. Ela era outra pessoa quando saiu. Dizia outras coisas. Eu não entendo!
Arrasto as malas com certa dificuldade e então, como quem se multiplica ou se locomove loucamente, ela está em minha frente, bloqueando minha passagem. Minha passagem. Meu caminho para casa. Minha vida. Chantagem. Pena, piedade, chantagem. Suicídio. Faca de cozinha, janela, gritos. Deixo minhas coisas e levo apenas a mim mesma. Ligações. Ligações por todo o caminho. Por toda a madrugada e manhã do dia seguinte. "Volta.", "Não vai voltar???", "Você não sabe o que está fazendo!", "Eu não sei porque disse aquelas coisas, estava atordoada, nunca quis que você fosse embora...", "Amor? Amor???"... Não sou seu amor. Nunca fui. Nunca serei. Ânsia de vômito. Quero minhas coisas. O melhor de mim em lembranças. "Venha buscar", chantagem. "Venha buscar". Me devolva minhas coisas!!! "Eu amo você". Me deixe ir embora. Quero ir embora.
- Me deixe ir embora. Quero ir embora! - (Público)
Eco?
- Mas isso é o que eu mais quero!
- Você quer me matar? - (Lágrimas, chantagem, gritos, público) 
- Me devolva minhas coisas! - (Testemunha)
- Você não pode esperar mais um dia? Vê, ela não pode esperar um dia! - diz, ao público. 
Testemunha confusa.
- Mais um dia? Mais? Chega!
- Chega!
Eco. 
Eco.
Sou eu na outra boca. Meus desejos em uma boca imunda e mentirosa. 
Silenciosa. Nada fala por si. Persuasiva? Psicopatia? Dúvida. Ânsia de vômito. 
- Não se aproxime enquanto eu estiver falando com a Fulana. Ela tem coisas para me contar, e não quer que você esteja por perto.
- Poxa, mas eu conheço a fulana de vista há um bom tempo, e isso nunca aconteceu antes. Muitas vezes estive sentada nas mesmas rodas, e ela nunca me pediu distância dessa forma. Imagino que seja algo grave. 
- Ela não quer você por perto, entendeu? Ela não quer! Respeite!
Mentira.
E toma outra.
Mentira.
E mais uma.
- Então, a Fulana me disse que você mentiu. Ela nunca foi sua amiga, nunca te contou segredo nenhum.- me diz.
- O que? Realmente, ela nunca foi minha amiga e nunca me contou segredo nenhum. Eu nunca disse isso!
- Vê? Vê como é louca? Agora você está me dizendo outra coisa!
- Louca, eu? Você é que está inventando um milhão de coisas e acreditando no que diz! Você precisa urgente de um psiquiatra!!!
Ânsia de vômito. 
Talvez tudo fosse mentira. Tudo, e não apenas uma boa parte. E eu não deveria ter dado uma chance. Ou duas. Jamais. Eu aliás, não deveria sequer ter pensado na possibilidade de revê-la, depois que a vi pela primeira vez. Mas existem coisas que nos servem para acreditar, ou desacreditar, mas acima de tudo, para nos acrescentar sabedoria. 
Eu peguei as minhas coisas. E deixei o melhor de mim. E rezei. Abençoei tudo que tenha ficado de horrendo em minhas lembranças, e deixei apenas um pedido: Não cruze mais meu caminho.
E um dia encontrei outra Fulana, que costumava dizer-se semeadora de luz e alegria, e num largo e rico Bom dia, recebi de volta o olhar de desdém mais pobre e podre que eu poderia receber daquele alguém. 
Mas não faz mal. Não sinto mais ânsia de vômito. Não sinto mais nada que diga respeito aos Fulanos e Fulanas que cercam e regam uma planta murcha e morta, que outrora chamei de minha, jurando que era flor.